O Abismo da Comunicação: Uma Fábula da Cosmogonia Científica

Um ente denominado Evolução, por meio da Genética, dotou o ser humano de mente, memória e consciência, ferramentas poderosas que, isoladamente, já o colocavam em posição de destaque no reino animal. No entanto, a capacidade de aprendizado revelou-se insuficiente para perpetuar suas conquistas: como transmitir a experiência vivida, as lições aprendidas e as histórias que moldavam sua identidade?

No alvorecer dos tempos, quando o Homo sapiens tomou consciência de si mesmo, uma nova era se iniciou. Pela intervenção da entidade mitológica chamada de Genética, o homem foi dotado de mente, memória e consciência, e assim o homem ascendeu ao patamar de “saber que sabe” recebendo o título de Homo sapiens sapiens. Esse presente, porém, carregava um desafio: o conhecimento ficara limitado pela curta duração da vida humana estando retido apenas em um único indivíduo. Era necessário transmiti-lo aos outros e às gerações futuras.

Foi então que o homem se deparou com o Abismo da Comunicação.

O Abismo era vasto e insondável, separando as consciências humanas umas das outras. Cada mente era uma ilha, isolada em um oceano de silêncio. Era impossível compartilhar ideias, sonhos ou medos. Mas o homem, movido pelo desejo de conexão, lançou-se à tarefa de tecer pontes para atravessar esse vazio.

O Surgimento das Entidades da Linguagem

Na dureza das encostas íngremes e inexploradas do abismo da comunicação, o homem encontrou as primeiras centelhas da Linguagem. Elas não eram formas definidas, mas fragmentos primordiais: gestos rudimentares, sons instintivos, expressões faciais carregadas de emoção. Com paciência e persistência, o homem começou a moldar essas centelhas em ferramentas mais sofisticadas. Assim, gestos, sons e imagens começaram a se unir para formar os primeiros rudimentos de linguagem. Não foi algo instantâneo, mas sim um longo processo de tentativa e erro. Dando origem as criaturas mitológicas: Fala e Língua.

Fala, a primeira das criações, era efêmera e fluida. Seu corpo era feito de som, capaz de se dissipar no vento, mas também poderoso o suficiente para carregar ideias e emoções de uma consciência a outra.

Língua, por sua vez, era uma criatura mutante. Suas formas eram instáveis, mudando com o tempo e a distância. Em cada região e época, ela assumia um rosto diferente, mas sempre mantendo seu propósito: ser a estrutura pela qual a Fala se organizava.

Juntas, essas entidades ajudaram o homem a atravessar o Abismo da Comunicação. Mas, como toda criação, elas tinham uma natureza indomável. A Língua, com seu corpo mutante, evoluía de maneira desordenada, fragmentando-se em múltiplas formas. Embora suas funções principais fossem preservadas, a multiplicidade das línguas separava os povos tanto quanto os unia.

A Teia das Linguagens

Para enfrentar o caos linguístico, os homens iniciaram um novo esforço. Era necessário dominar a Língua e suas mutações, criando regras que organizassem seu comportamento. Assim surgiu a Teia das Linguagens, um sistema de convenções que conectava as palavras, os sons e os gestos, tornando a comunicação mais clara e eficiente.

Essa teia era frágil e exigia constante manutenção. Os povos humanos, espalhados pelo tempo e espaço, se dedicavam à tarefa de remendar e expandir a Teia, adaptando-a às necessidades de cada época e cultura. Era uma obra coletiva, sem fim, mas essencial para o progresso. Linguagem, Língua e Fala emerge como uma compreensão essencial sendo pois:

Linguagem: A capacidade humana de criar e organizar significados, abrangendo tanto aspectos biológicos quanto culturais.

Língua: Um sistema socialmente construído, consagrado pela comunidade como meio de expressão e comunicação.

Fala: A realização individual desse sistema, moldada pela inteligência e criatividade humanas.

No decorrer desse processo de aprimoramento da teia linguagens, que levou o homem a vencer o abismo da comunicação, algumas etapas se seguiram: 

Etapas desse desenvolvimento:

Comunicação instintiva: Expressões faciais, gestos e sons emocionais (gritos de alarme, risadas, ou choro). Essas formas iniciais refletiam emoções básicas e respostas instintivas.

Símbolos compartilhados: Com o tempo, certos sons e gestos passaram a simbolizar ideias mais complexas, como “perigo” ou “comida”.

Surgimento da gramática: Um salto colossal ocorreu quando os símbolos começaram a ser organizados em padrões regulares, permitindo transmitir sequências lógicas e narrativas. 

A Comunicação como Ferramenta Evolutiva

Na busca pelo conhecimento e com o domínio dos fios que tecem a trama da linguagem, o tão temido desfiladeiro da Comunicação passou a ser preenchido pelo tecido da linguagem transformando o homem em um ser interconectado, permitindo que ideias transcendessem o tempo e o espaço podendo promover eventos como:

Transmissão cultural: Ideias e técnicas começaram a ser ensinadas e aprimoradas ao longo de gerações.

Cooperação social: Grupos humanos puderam se organizar para enfrentar desafios maiores do que qualquer indivíduo poderia superar sozinho.

Criação de mitologias: Histórias e conceitos abstratos (como deuses, espíritos ou mesmo "a cosmogonia científica") nasceram para explicar o mundo e unir comunidades.

O Nascimento da Escrita

Apesar das conquistas alcançadas pela Fala e pela Língua, o homem logo percebeu que havia outro desafio a ser enfrentado. As palavras faladas eram fugazes, desaparecendo tão rapidamente quanto eram pronunciadas. O conhecimento acumulado corria o risco de se perder para sempre. Foi então que, das profundezas da mente humana, surgiu uma nova entidade: Escrita. (Mas essa é uma história para outro capítulo da cosmogonia.)

Homo sapiens sapiens avança 

Como se tivesses avançando de fase em uma partida de vídeo game, o homem alcançou a habilidade de se comunicar e transmitir conhecimento. Mas o preço dessa conquista é a constante batalha para organizar e adaptar a linguagem às suas necessidades. A Fala e a Língua, embora domadas, permanecem entidades vivas e mutantes, moldadas pela mão humana, mas também influenciando a humanidade como um tecido de vários fios com várias camadas de significados.

O Abismo da Comunicação foi transposto, mas a jornada do Homo sapiens sapiens continua. A busca por conexão e entendimento é infinita, assim como a expansão de sua consciência e a jornada em busca do saber.

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